Como data de uma garota negra

Noite chuvosa - Contos da madrugada

2020.11.15 00:08 eddwmv Noite chuvosa - Contos da madrugada

Dia 22 as 18 horas, A placa alertava: noite chuvosa. Seria ótimo para lavar a alma depois de uma semana tão triste. No trabalho estava no meu limite, Não havia para onde correr, nem mesmo a meu relacionamento, que a dias não existe. Corpo cansado, coração fadado ao fracasso. Penso em tudo isso enquanto olho para baixo e encaro o meu sapato. Faço manobras da calçada para o asfalto, tentando sair do congestionamento humano. Ate que fui acordado do meu transe cotidiano com as gotas de chuva batendo em meu rosto.
As pessoas corriam e se escondiam da chuva, uma tempestade se formava. Eu continue andando e procurando um lugar para aguardar a chuva passar, logo encontrei um abrigo em frete a uma floricultura. Esperei e Esperei, todos a minha voltas foram embora no meio de toda aquela chuva e eu continuei a esperar. Já era 18:48 e parecia que a tempestade não teria um final. Quando fui pegar o ônibus e me surpreendi quando vi a multidão no terminal, mais do que o normal foi algo tão surreal. Pessoas brigando e se empurrando para entrarem. Novamente eu esperei a multidão dispersar naquela noite por acaso não estava apressado a chegar em casa. Pouco a pouco a multidão foi dispersando e por "coincidência" os ônibus acabando. Olhei ao meu redor com a esperança do meu ônibus ser o próximo a chegar, mas antes mesmo que eu criasse alguma expectativa eu olhei para o lado e vi ela, Clara, novamente por coincidência do destino no mesmo momento o alto-falante informa linha 677 cancelada. Nem conseguir pensar ao menos como iria voltar para casa mas sim que clara estava ali, parada.
Havia sido um término dolorido, Ambos haviam saído feridos. Não sabia o que fazer, seriamos amigos ou inimigos na nossa ultima conversa isso não ficou explícito. Foram poucos segundos mas tantos pensamentos. Me sinto inseguro mas ao mesmo tempo enfrentaria o mundo. Por um impulso de coragem eu fui em direção a ela, As pernas travaram porem não teria como eu parar agora, Era tudo ou nada. Ao chegar a certa de dois metros de distância ela olhou em minha direção e por minha surpresa ela não demonstrou nenhuma reação, Apenas disse um ola seco e sorriu, logo apos me abraçou de forma gentil.
Ela esta nervosa mas parecia não ser por minha causa, praticamente não se importava com o que acontecia ao seu redor naquele momento. Então eu perguntei o que a afligia, um pouco preocupada ela pediu desculpas por seu comportamento e disse que havia um compromisso naquela noite e não poderia perde-lo por nada. Porem os ônibus estavam lotados e sair de lá andando no meio de uma tempestade não parecia ser nada fácil.
Angustiada mexia de um lado para o outro o seu anel. Fiquei preocupado nunca havia lhe visto tão estranha, olhava de um lado para o outro como se esperasse que o universo a ajudasse. Acho que de alguma maneira o universo ajudou , me colocando no meio de seu caminho. Não havia mais ônibus e nem taxi , todo mundo já estava em direção a suas casas menos ela e eu. Ainda sem saber muito o que fazer para ajuda-la dei a ideia que fossemos no balcão de informações que estava bem próximo de nós, Acenou com a cabeça e fomos em direção .Neste pequeno percurso de poucos segundos não deu para não notar como ela estava triste. Ela não era assim , pois é a mais engraçada dos amigos, Sempre tem um sorriso mesmo que seja escondido.
Ao chegar no balcão notei que era uma pequena cabine, tao pequena que imaginei como seria respirar dentro de um lugar como este. Dentro havia um rapaz simpático com um sorriso de ponta a ponta. Ele nos disse boa noite e perguntou como poderíamos nos ajudar ,antes mesmo do moço terminar de falar clara já tinha lhe interrompia e disse que teria que volta para a Iracema antes das 23 horas. Mas antes dela especificar, O moço deu o troco em clara e não a deixou terminar a frase dizendo que não havia ônibus disponível por conta da grande chuva. Ela sofreu uma mudança repentina de comportamento, estava brava e não se parecia mais aquela moça que eu tanto conhecia. Eu retirei clara da vidraça empoeirada da cabine enquanto ela batia bruscamente nela e xingava o rapaz que não a respondia, Apenas sorria.
Já um pouco distante coloquei-a no chão e a perguntei o que estava acontecendo de fato, ainda um pouco nervosa ela abaixou a cabeça respirou e me perguntou porque eu estava tentando ajuda-la ,que não devia nada a ela e assim poderia esquecer e ir embora. Mesmo ainda sem entender o que se passava eu disse a ela que também gostaria de volta para casa , que tinha me mudado e a casa dela ficava a caminho da minha.Ela respirou e disse ok, se desculpou novamente e perguntou como iriamos volta para casa. Olhei ao nosso redor e a única coisa que via era uma cabine , um musico de rua tocando musica triste e o céu repleto de nuvens negras. Havia poucas escolhas e nenhuma ideia. Fomos até o musico que estava no final do terminal ao chegar conseguir ouvir melhor a musica que o tal musico tocava. Era alguma versão acústica de jazz, lembrei disso pois toda garota branca adorava.
Apos finalizar sua ultima canção ele olhou para nos e deu um sorriso , perguntou se tínhamos gostado. Falamos que sim e ele sorriu mais uma vez ele sorriu, então perguntamos se ele conhecia alguma maneira de conseguir chegar em casa.Olhando para o céu ele diz que a única coisa que poderíamos fazer seria esperar a chuva passar ate o amanhecer. Bom pela cara de clara esperar não seria uma opção nos despedimos do musico e voltamos a entrada.
Ao chegar, só conseguia notar as nuvens carregadas e o som alto dos raios poucos carros passavam na rua e não vi nenhuma pessoa. Clara começou a andar pela chuva em uma direção e não parou nem mesmo comigo gritando o seu nome. Coloquei minha mochila em cima da cabeça e corri em sua direção toquei em seu ombro e ela continuo. Eu a empurrei levemente para debaixo da fachada de uma loja onde a água não nos tocava, por um instante não conseguia ouvir som algum tudo se silenciou e o tempo parou. Ela olhou em meus olhos e eu tenho total certeza que algo acontecia em seus olhos parecia a explosão de duas estrelas. A queda d'água ao nosso lado junto com a luz do porte fizeram um cenário digno de qualquer filme. Com um pequeno toque no meu peito ela olhou para o lado e se inclinou e falou que poderíamos ir andando ate a parada de trem. Achei loucura mas não disse nada apenas queria ficar mais um pouco do seu lado. Sem falar mais nada ela saiu andando.
Busquei conversar com clara para acalma-la, logo a perguntei como estava no trabalho e na vida. Me respondeu rapidamente enquanto encarava a calçada que tudo andava bem, na verdade tudo estava finalmente se arrumando em sua vida. Eu fiquei feliz por ela, mas ao mesmo tempo la no fundo do meu ser ... eu estava triste. Sera que era tão fácil assim me esquecer ? . Ela começou a falar dos seu últimos dias e como tinha sido incrível viajar para distrito federal que inclusive foi o pivô da nossa separação. Para ser mais sincero só estávamos esperando uma faísca para a explosão do nosso relacionamento. Clara contava com detalhes sua viagem, eu sorria como sempre e não dizia nada. Tivemos que caminhar na chuva pois já não havia mais como nos protegermos com as fachadas das lojas. Eu estava molhado e animado , não imaginei que nos dois voltaríamos a conversar novamente. Fomos caminhando e a chuva aumentando chegamos a um ponto que a água estava passando dos nossos joelhos.
Porem não nos abalamos continuamos andando, clara parou para ajudar um filhote de gato que a correnteza da água acumulada o levava. Começamos a falar do passado e por acaso clara dizia a saudade que sentia do começo do nosso relacionamento. Lembramos como começamos a sair e como tudo aquilo era divertido até que por algum motivo , quem sabe em um domingo qualquer, nos perdemos em sofares ao invés de praças ou bares. O cotidiano nos matou e nos nem havíamos percebido. Depois que a perdi foi que eu entendi que ela gostaria de sair mais talvez eu só podia ser amado se adicionasse algo interessante a noite. Mas ela esta ali comigo , havíamos nos encontrado por acaso . Acho que se não fosse ali o destino teria dado a sua maneira de nos da essa ultima chance a nossa historia.
Andamos e andamos mais um pouco, a chuva já estava insuportável , resolvemos descansar um pouco em uma parada de ônibus. Sentamos no banco , por pouco tempo , estava geladíssimo praticamente pulamos de la. Riamos juntos e nos abraçamos . O clima estava frio e o corpo dela me aquecia mesmo com toda sua roupa molhada. O céu foi pintado de cinza, da rua víamos a pintura mais linda. As buzinas dos pouquíssimos carros que ainda rodavam silenciaram, A única coisa que escutamos era o som da água batendo no telhado da parada. As ruas ruas de asfalto foram substituídos por buracos inundados. Do lado dela não existia tempo e espaço, não existia logica e nem mais duvidas. Ela me perguntou se o melhor seria voltar a andar ou ficar, sinceramente gostaria de ficar naquele lugar, e ate a chuva passar aproveitar o abraço dela. Mas resolvi partir não havia necessidade daquilo , já estava um pouco mais tranquilo de andar e estávamos chegando ao trem.
Voltamos a caminhar , A garota irritada já havia se transformado na velha clara de sempre. Sorria e reclamava da vida , falava de politica , contou sobre suas novas teorias e recitava seus poemas do dia. Finalmente chegamos a estação de trem, tinha alguns grupos de pessoas mas só eu e ela que estávamos encharcados . Me sentei no banco do trem e clara se deitou em meu colo, enquanto ela analisava as pessoas a nossa volta eu mexia em sua juba , quando ela sorria eu também sorria. Mas ao passar do tempo clara se calou e ficou em transe olhando para o teto . Quando a chamei ela se virou e acho que dormiu ou apenas fechou os olhos , continue mexendo em seu cabelo encaracolado . Antes da viagem acabar ela pegou minha mão e segurou firme , Até o trem parar. Quando chegamos ela se levantou e eu também ela colocou seus braços em volta da minha cintura e fomos andando, quanto mais nos aproximávamos de sua casa e apertava mais um pouco. Quando chegamos ainda chovia e esta bastante frio. Ela se aproximou mais um pouco olhou em meus olhos e sorrio, Olhou para meus lábios e eu olhei para os dela e quase que naturalmente nos beijamos. E por alguns instantes estava feliz novamente e nada e ninguém no universo conseguiria mudar isso.
Era 22:48 da noite a chuva me congelava o beijo dela me queimava, nunca conseguirei esquecer esta data e hora pois ainda estou preso nela de certa forma. Consigo me lembrar perfeitamente do momento em que nos separamos, vejo tudo em câmera lenta , reparo em seu caso cinza molhado que dava uma aparência de pesado . Olho para a luz do porte, parecia um amarelo ou alguma cor meio alaranjada. Gotas passavam por sua luz e me fazia imaginar em chuva de meteoros, Olhei para os olhos de clara e reparo como se parecem com um universo se expandindo. Tudo naquele momento era lindo. Ate que olho para o apartamento dela no segundo andar e consigo ver um rapaz em sua varanda , não da para ver detalhes pois ainda chove um pouco. Mas conseguia ver que havia rapaz e um jantar a luz de velas em sua varanda lhe esperando voltar . Clara sabia o que eu tinha visto e não falou nada , apenas olhou para mim e depois lentamente foi abaixando sua cabeça virou-se e começou a andar um pouco mais rápida . Entrou no prédio e antes de fechar a porta olhou em minha direção mais uma vez, sinceramente não sabia o que fazer , só continue la na chuva olhando para cima. Eu estava molhado e desanimado.
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2020.11.15 00:02 eddwmv Noite chuvosa

Dia 22 as 18 horas, A placa alertava: noite chuvosa. Seria ótimo para lavar a alma depois de uma semana tão triste. No trabalho estava no meu limite, Não havia para onde correr, nem mesmo a meu relacionamento, que a dias não existe. Corpo cansado, coração fadado ao fracasso. Penso em tudo isso enquanto olho para baixo e encaro o meu sapato. Faço manobras da calçada para o asfalto, tentando sair do congestionamento humano. Ate que fui acordado do meu transe cotidiano com as gotas de chuva batendo em meu rosto.
As pessoas corriam e se escondiam da chuva, uma tempestade se formava. Eu continue andando e procurando um lugar para aguardar a chuva passar, logo encontrei um abrigo em frete a uma floricultura. Esperei e Esperei, todos a minha voltas foram embora no meio de toda aquela chuva e eu continuei a esperar. Já era 18:48 e parecia que a tempestade não teria um final. Quando fui pegar o ônibus e me surpreendi quando vi a multidão no terminal, mais do que o normal foi algo tão surreal. Pessoas brigando e se empurrando para entrarem. Novamente eu esperei a multidão dispersar naquela noite por acaso não estava apressado a chegar em casa. Pouco a pouco a multidão foi dispersando e por "coincidência" os ônibus acabando. Olhei ao meu redor com a esperança do meu ônibus ser o próximo a chegar, mas antes mesmo que eu criasse alguma expectativa eu olhei para o lado e vi ela, Clara, novamente por coincidência do destino no mesmo momento o alto-falante informa linha 677 cancelada. Nem conseguir pensar ao menos como iria voltar para casa mas sim que clara estava ali, parada.
Havia sido um término dolorido, Ambos haviam saído feridos. Não sabia o que fazer, seriamos amigos ou inimigos na nossa ultima conversa isso não ficou explícito. Foram poucos segundos mas tantos pensamentos. Me sinto inseguro mas ao mesmo tempo enfrentaria o mundo. Por um impulso de coragem eu fui em direção a ela, As pernas travaram porem não teria como eu parar agora, Era tudo ou nada. Ao chegar a certa de dois metros de distância ela olhou em minha direção e por minha surpresa ela não demonstrou nenhuma reação, Apenas disse um ola seco e sorriu, logo apos me abraçou de forma gentil.
Ela esta nervosa mas parecia não ser por minha causa, praticamente não se importava com o que acontecia ao seu redor naquele momento. Então eu perguntei o que a afligia, um pouco preocupada ela pediu desculpas por seu comportamento e disse que havia um compromisso naquela noite e não poderia perde-lo por nada. Porem os ônibus estavam lotados e sair de lá andando no meio de uma tempestade não parecia ser nada fácil.
Angustiada mexia de um lado para o outro o seu anel. Fiquei preocupado nunca havia lhe visto tão estranha, olhava de um lado para o outro como se esperasse que o universo a ajudasse. Acho que de alguma maneira o universo ajudou , me colocando no meio de seu caminho. Não havia mais ônibus e nem taxi , todo mundo já estava em direção a suas casas menos ela e eu. Ainda sem saber muito o que fazer para ajuda-la dei a ideia que fossemos no balcão de informações que estava bem próximo de nós, Acenou com a cabeça e fomos em direção .Neste pequeno percurso de poucos segundos não deu para não notar como ela estava triste. Ela não era assim , pois é a mais engraçada dos amigos, Sempre tem um sorriso mesmo que seja escondido.
Ao chegar no balcão notei que era uma pequena cabine, tao pequena que imaginei como seria respirar dentro de um lugar como este. Dentro havia um rapaz simpático com um sorriso de ponta a ponta. Ele nos disse boa noite e perguntou como poderíamos nos ajudar ,antes mesmo do moço terminar de falar clara já tinha lhe interrompia e disse que teria que volta para a Iracema antes das 23 horas. Mas antes dela especificar, O moço deu o troco em clara e não a deixou terminar a frase dizendo que não havia ônibus disponível por conta da grande chuva. Ela sofreu uma mudança repentina de comportamento, estava brava e não se parecia mais aquela moça que eu tanto conhecia. Eu retirei clara da vidraça empoeirada da cabine enquanto ela batia bruscamente nela e xingava o rapaz que não a respondia, Apenas sorria.
Já um pouco distante coloquei-a no chão e a perguntei o que estava acontecendo de fato, ainda um pouco nervosa ela abaixou a cabeça respirou e me perguntou porque eu estava tentando ajuda-la ,que não devia nada a ela e assim poderia esquecer e ir embora. Mesmo ainda sem entender o que se passava eu disse a ela que também gostaria de volta para casa , que tinha me mudado e a casa dela ficava a caminho da minha.Ela respirou e disse ok, se desculpou novamente e perguntou como iriamos volta para casa. Olhei ao nosso redor e a única coisa que via era uma cabine , um musico de rua tocando musica triste e o céu repleto de nuvens negras. Havia poucas escolhas e nenhuma ideia. Fomos até o musico que estava no final do terminal ao chegar conseguir ouvir melhor a musica que o tal musico tocava. Era alguma versão acústica de jazz, lembrei disso pois toda garota branca adorava.
Apos finalizar sua ultima canção ele olhou para nos e deu um sorriso , perguntou se tínhamos gostado. Falamos que sim e ele sorriu mais uma vez ele sorriu, então perguntamos se ele conhecia alguma maneira de conseguir chegar em casa.Olhando para o céu ele diz que a única coisa que poderíamos fazer seria esperar a chuva passar ate o amanhecer. Bom pela cara de clara esperar não seria uma opção nos despedimos do musico e voltamos a entrada.
Ao chegar, só conseguia notar as nuvens carregadas e o som alto dos raios poucos carros passavam na rua e não vi nenhuma pessoa. Clara começou a andar pela chuva em uma direção e não parou nem mesmo comigo gritando o seu nome. Coloquei minha mochila em cima da cabeça e corri em sua direção toquei em seu ombro e ela continuo. Eu a empurrei levemente para debaixo da fachada de uma loja onde a água não nos tocava, por um instante não conseguia ouvir som algum tudo se silenciou e o tempo parou. Ela olhou em meus olhos e eu tenho total certeza que algo acontecia em seus olhos parecia a explosão de duas estrelas. A queda d'água ao nosso lado junto com a luz do porte fizeram um cenário digno de qualquer filme. Com um pequeno toque no meu peito ela olhou para o lado e se inclinou e falou que poderíamos ir andando ate a parada de trem. Achei loucura mas não disse nada apenas queria ficar mais um pouco do seu lado. Sem falar mais nada ela saiu andando.
Busquei conversar com clara para acalma-la, logo a perguntei como estava no trabalho e na vida. Me respondeu rapidamente enquanto encarava a calçada que tudo andava bem, na verdade tudo estava finalmente se arrumando em sua vida. Eu fiquei feliz por ela, mas ao mesmo tempo la no fundo do meu ser ... eu estava triste. Sera que era tão fácil assim me esquecer ? . Ela começou a falar dos seu últimos dias e como tinha sido incrível viajar para distrito federal que inclusive foi o pivô da nossa separação. Para ser mais sincero só estávamos esperando uma faísca para a explosão do nosso relacionamento. Clara contava com detalhes sua viagem, eu sorria como sempre e não dizia nada. Tivemos que caminhar na chuva pois já não havia mais como nos protegermos com as fachadas das lojas. Eu estava molhado e animado , não imaginei que nos dois voltaríamos a conversar novamente. Fomos caminhando e a chuva aumentando chegamos a um ponto que a água estava passando dos nossos joelhos.
Porem não nos abalamos continuamos andando, clara parou para ajudar um filhote de gato que a correnteza da água acumulada o levava. Começamos a falar do passado e por acaso clara dizia a saudade que sentia do começo do nosso relacionamento. Lembramos como começamos a sair e como tudo aquilo era divertido até que por algum motivo , quem sabe em um domingo qualquer, nos perdemos em sofares ao invés de praças ou bares. O cotidiano nos matou e nos nem havíamos percebido. Depois que a perdi foi que eu entendi que ela gostaria de sair mais talvez eu só podia ser amado se adicionasse algo interessante a noite. Mas ela esta ali comigo , havíamos nos encontrado por acaso . Acho que se não fosse ali o destino teria dado a sua maneira de nos da essa ultima chance a nossa historia.
Andamos e andamos mais um pouco, a chuva já estava insuportável , resolvemos descansar um pouco em uma parada de ônibus. Sentamos no banco , por pouco tempo , estava geladíssimo praticamente pulamos de la. Riamos juntos e nos abraçamos . O clima estava frio e o corpo dela me aquecia mesmo com toda sua roupa molhada. O céu foi pintado de cinza, da rua víamos a pintura mais linda. As buzinas dos pouquíssimos carros que ainda rodavam silenciaram, A única coisa que escutamos era o som da água batendo no telhado da parada. As ruas ruas de asfalto foram substituídos por buracos inundados. Do lado dela não existia tempo e espaço, não existia logica e nem mais duvidas. Ela me perguntou se o melhor seria voltar a andar ou ficar, sinceramente gostaria de ficar naquele lugar, e ate a chuva passar aproveitar o abraço dela. Mas resolvi partir não havia necessidade daquilo , já estava um pouco mais tranquilo de andar e estávamos chegando ao trem.
Voltamos a caminhar , A garota irritada já havia se transformado na velha clara de sempre. Sorria e reclamava da vida , falava de politica , contou sobre suas novas teorias e recitava seus poemas do dia. Finalmente chegamos a estação de trem, tinha alguns grupos de pessoas mas só eu e ela que estávamos encharcados . Me sentei no banco do trem e clara se deitou em meu colo, enquanto ela analisava as pessoas a nossa volta eu mexia em sua juba , quando ela sorria eu também sorria. Mas ao passar do tempo clara se calou e ficou em transe olhando para o teto . Quando a chamei ela se virou e acho que dormiu ou apenas fechou os olhos , continue mexendo em seu cabelo encaracolado . Antes da viagem acabar ela pegou minha mão e segurou firme , Até o trem parar. Quando chegamos ela se levantou e eu também ela colocou seus braços em volta da minha cintura e fomos andando, quanto mais nos aproximávamos de sua casa e apertava mais um pouco. Quando chegamos ainda chovia e esta bastante frio. Ela se aproximou mais um pouco olhou em meus olhos e sorrio, Olhou para meus lábios e eu olhei para os dela e quase que naturalmente nos beijamos. E por alguns instantes estava feliz novamente e nada e ninguém no universo conseguiria mudar isso.
Era 22:48 da noite a chuva me congelava o beijo dela me queimava, nunca conseguirei esquecer esta data e hora pois ainda estou preso nela de certa forma. Consigo me lembrar perfeitamente do momento em que nos separamos, vejo tudo em câmera lenta , reparo em seu caso cinza molhado que dava uma aparência de pesado . Olho para a luz do porte, parecia um amarelo ou alguma cor meio alaranjada. Gotas passavam por sua luz e me fazia imaginar em chuva de meteoros, Olhei para os olhos de clara e reparo como se parecem com um universo se expandindo. Tudo naquele momento era lindo. Ate que olho para o apartamento dela no segundo andar e consigo ver um rapaz em sua varanda , não da para ver detalhes pois ainda chove um pouco. Mas conseguia ver que havia rapaz e um jantar a luz de velas em sua varanda lhe esperando voltar . Clara sabia o que eu tinha visto e não falou nada , apenas olhou para mim e depois lentamente foi abaixando sua cabeça virou-se e começou a andar um pouco mais rápida . Entrou no prédio e antes de fechar a porta olhou em minha direção mais uma vez, sinceramente não sabia o que fazer , só continue la na chuva olhando para cima. Eu estava molhado e desanimado.
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2016.07.18 14:45 999Luzeiro A praia está perdida

publicação original no Medium
Eu sempre subi àquele terraço em dia de festa. A arquitetura brutal, o piso grafite e a irremediável falta de uma paisagem que preste (comum à capital, aliás), jamais foram capazes de reduzir a alegria que sinto ao visitar minha única irmã. Percebo, desta vez, que o luto se expressa pelas varizes nas paredes que rodeiam a escada, no metal frio e azedo do corrimão e, finalmente, na sensação de pisar em um cinzeiro proporcionada pelas placas erodidas do piso. A feiura é oportunista, e no dia de hoje, saiu em carnaval.
Lá estava o meu cunhado, abaixo de uma das pontas do varal, investigando pelos espaços vazios do gradeado uma possibilidade de escorrer pelas paredes externas do prédio de nove andares. “Você comeu, Felipe?”, foi o meu único cumprimento possível, e “Hum, comi” foi a única resposta que lhe pareceu honesta. É claro que comeu — alguma vez na vida — mas duvido que tenha tido estômago para reiterar tão prazeroso e exigente hábito, hoje. Hoje não, pois o meu cunhado, marido da minha única irmã, perdeu o único filho. Meu único sobrinho e afilhado. Minha dor não é pequena, mas no topo do pódio da orfandade inversa, temos a minha irmã, coroada de espinhos e de cama há dois dias. Em seguida, Felipe Remador, estático no terraço em pleno inverno e com o estômago vazio. Talvez eu em esteja em terceiro lugar, junto com a namorada do Léo, não sei. O que sei é trago as notícias, como um relâmpago invisível que transformará os tímpanos do ouvinte em peito.
“Escuta, Felipe.” E descrevo como um apresentador de telejornal excessivamente soturno o desdobrar dos fatos do dia: encontraram o corpo preso ao recife, poucas escoriações, a causa mortis foi mesmo o afogamento, está tudo acertado para o enterro amanhã, no Parque da Colina. Falei com a mãe da namorada, ela não vai, está em choque. Aquele menino, Raul, ainda não voltou a Belo Horizonte. Me ligou do celular do Léo, estava com uma voz tenebrosa. Está tudo pago, não se preocupa. Eu estou muito bem empregado e não é hora de falar disso. E dou sequência, como ventania: “Preciso te contar uma coisa, Lipe, o Léo me ligou no dia anterior ao sumiço, e a conversa estava mais estranha do que de costume…”
“Eu comi, sim. Tem macarrão, se você quiser.” E me corta como se nos falássemos pela internet, com enorme atraso. E começa a me contar do filho: coisas que eu já sei, mas só me resta ouvir mais uma vez.
Leonardo Remador nasceu com o cordão umbilical em volta do pescoço, sem choro e nem desespero. Nasceu sorrindo. O obstetra achou que estava se contorcendo pelo sufoco, mas não: era um sorriso mesmo. “Esse é forte, corajoso” — daí ‘Leonardo’ — disse, para encher o pai de orgulho, enquanto a enfermeira entregava o Príncipe aos braços da mãe. Era um Príncipe, quase enforcado, porém um Príncipe, como são todos os recém-nascidos após a Proclamação da República. Não parava de se mexer e olhar ao redor, como se procurasse por mais um corda para se amarrar, e se apertar.
Começou a andar com oito meses (o que o pediatra considerou um recorde) mas o pai já reparava que muito antes o guri já ensaiava ficar de pé. Era uma brincadeira nervosa: apoiava-se nos joelhos e esticava as pernas trêmulas, e em dois segundos caía. “Toda criança faz isso”, diz o pediatra sem querer estregar o encantamento do recém-pai. “Não”, continua Felipe, “ele não cai e chora. Ele cai a dá a maior gargalhada. E se levanta e se joga de novo. E ri. Se já soubesse falar ia chamar isso de ‘brincadeira da gravidade’, sei lá”. E descreve a forma como o filho olha para baixo ao cair, como se quisesse testemunhar cada segundo do trajeto. “Às vezes o Léo tem um senso de humor maior do que o das outras crianças”, desconversa o jovem doutor, voltando os olhos adestrados ao monitor adestrador do computador.
Aos cinco anos chorava e dava escândalos quando o pai se negava a dar uma volta de motocicleta com ele pelo quarteirão. Quando o seu desejo era atendido aos finais de semana, voltava para casa dócil e calado, prestes a cair no sono e recompensar os pais com o silêncio que o casal tinha antes do Príncipe ter vindo ao mundo.
E ele foi ao mundo: no futebol, só jogava como goleiro pois nas outras posições não podia atirar-se pelos ares e havia menos risco de levar uma bolada na cara. Na natação, perdia as instruções do professor por se interessar mais pela apneia. Se deu melhor nas artes marciais, para o desespero de sua mãe que não suportava ter que aplicar curativos duas vezes por semana. Finalmente, na puberdade, a coragem e o senso de humor exagerado tornaram-se insuportáveis. Gostava de provocar o pai pelo simples prazer de escutar sua voz engrossar e ameaçá-lo. Sentava-se na janela para ouvir música e balançava-se para frente e para trás em um ângulo cada vez menos agudo, cantarolando sossegado até que a mãe o via do corredor e gritava de susto. Só se interessava pelas garotas que já tinham um namorado, e aos treze anos voltou para casa com um olho roxo e os lábios rasgados por roubar um beijo de uma garota mais velha que estava a dois metros do cara mais velho ainda que a namorava. Os pais concordavam que aquilo não era rebeldia pois sempre que aprontava alguma o adolescente passava os próximos dois ou três dias obediente e calmo. Ele tinha ideias que beiravam a burrice e após um longo ano de acidentes e notas baixas, foram atrás de especialistas, pois o primeiro médico que o tocou estava mesmo errado. Leonardo, segundo o psicólogo, era um bom rapaz, mas era melhor ir ver um psiquiatra. O psiquiatra — que por curiosidade saltava de para-quedas nos finais de semana — também não viu nada de errado no garoto, mas por via das dúvidas, recomendou um amigo neurologista. Após mapear o cérebro de Léo, confirmou a boa saúde mental do rapaz, mas seguiu uma pista em sua circulação sanguínea nos exames de rotina que o levava a crer que o nível de adrenalina era muito mais alto do que o normal. Com a ajuda de um endocrinologista constaram que a coragem de Leonardo era na verdade uma doença rara em suas glândulas renais que produziam uma quantidade excessiva daquele hormônio, viciando das íris aos pulmões, passando pelo coração e todos os músculos. O pai teve que vender a moto e um carro, mas pagaram o tratamento e aos dezesseis Léo já não andava mais com sua bicicleta sem freios pelo bairro. Apesar de não ser dos mais espertos ou um dos mais bonitos, tinha um talento único com as mulheres, já que a possibilidade de rejeição o atraia, coisa que não existia em homem algum. Aos dezenove, arrumou uma namorada sem namorado, Júlia, e achava o máximo quando a menstruação dela atrasava alguns dias, e é claro que não era nem um pouco favorável ao uso de preservativos. Dizia apenas que era uma pessoa simples e que gostava das diversões curtas pois a vida, em si, era mesmo curta. Raul, um dos seus amigos mais antigos, ria e dizia que o problema é que os momentos simples de Léo poderiam encurtar a vida mais ainda. Era grato ao parceiro, pois mesmo sem se interessar por um baseado, Léo era o único disposto a entrar com ele nas favelas para comprar aquele mato amassado.
Apreensivos, os pais viram o garoto tirar a carteira de motorista. Nenhum problema, a não ser as multas por excesso de velocidade que eram pagas pelo próprio rapaz, que se virava na papelaria do pai do Raul. As pessoas que conviviam com ele acabaram se acostumando e até mesmo os pais deixaram de se preocupar tanto e esqueceram que “o jeito dele” era um problema sério. Júlia, segundo um psicanalista freud- ou junguiano (precisamos diferenciar charlatões?), no fundo morria de tesão por caras irresponsáveis, Raul (nas palavras de uma pedagoga do Ensino Médio) também não era exemplo de comportamento e assim Leonardo tocou sua vida abusando da sorte.
Acontece que, mineiro que era, Léo poucas vezes foi ver o mar, e só o fez ao lado dos pais, que não gostavam muito de areia. Aos vinte e um foi ao litoral capixaba com Júlia, amigos dela e o tal do Raul. Uns dois ou três dias antes da data da volta para casa, Léo me ligou. Ouvi o pequeno trip journal que, não sei porque, decidiu me contar ao custo de todos os créditos do seu pré-pago. Começa bobo e vai escurecendo, como a apresentação de um palhaço trágico, e eu me arrependo de não ter anotado algumas partes, ou gravado a conversa toda.
Em janeiro, o sol derramava-se do alto e refletia na areia e no mar, queimando sua pele branca e agredindo seus olhos não muito escuros. Gostou daquilo, mas logo à frente estava algo que o seduzia muito mais, o próprio mar. Não entendia como tantas pessoas aguentavam ficar o dia inteiro sentadas em cadeiras de plástico bebendo e comendo ao redor dos quiosques sem nem se aproximar das ondas. Logo no primeiro dia, subiu com Raul em um morro baixo com os pés descalços e sentaram-se em rochas negras que um dia formaram um coral. Enquanto o amigo apertava um, viu uma mulher alta e bronzeada, de cabelos morenos e músculos bem definidos mergulhar nas águas e nadar por quatro minutos, sem parar, traçando uma linha quase reta. Ao distanciar-se da praia, as ondas tornaram-se maiores e algumas pessoas já acenavam para que ela voltasse. Desapareceu atrás das ondas por alguns segundos, e, depois, sorrindo, nadou de volta como se estivesse em uma piscina rasa. Gostou daquilo.
Nadou com Júlia um bom tempo pela tarde, sem se arriscar de mais. Toda vez que olhava para a linha do horizonte, se distraía a ponto de deixar de escutar o que a namorada falava. Lembrou-se de como aquela morena conseguiu ir tão longe com tanta calma. Gostou daquilo, mas gostou de mais. À noite, após uma bebedeira na casa dos pais de um dos amigos de Júlia, Léo teve sonhos agitados. Quando acordou, lembrou-se de três: primeiro, mordia o cano de uma arma de fogo que um homem encapuzado que apontava para sua cabeça, rindo da falta de coragem do assaltante em disparar. Em outra situação apontava para a namorada que trocava de roupa, mostrando para Raul. Por fim, sonhou que nadava no fundo de um lago e respirava normalmente embaixo d’água, sem precisar voltar à superfície.
Saiu sozinho para comprar pão e o que mais precisassem. Como em qualquer cidadezinha do litoral do Espírito Santo, encontraria uns cinco botecos para cada padaria ou mercearia — se a mercearia vender cerveja, não sei dizer como ficaria a conta, mas enfim, por uma questão estatística decidiu tomar uma antes de cumprir a sua missão de levar comida à namorada e aos amigos.
Ao final da primeira garrafa daquela cerveja fraca mas bravamente gelada, Léo olha em volta e percebe a presença da nadadora alta e morena. Não a tinha visto ali, sozinha na outra ponta do balcão, que era em éle e permitia tal ponto cego. A moça olhava para ele e achava graça da miserável atitude do menino de quase torcer a garrafa que já havia acabado. Ofereceu a sua, cheia, e lá vai Léo conversar fiado com uma mulher linda e aparentemente solteira ao invés de levar pão para a namorada. “Ela achou o meu sobrenome o máximo, tio. Disse que eu devia nadar muito bem, porque, ‘Remador’, né. Mas já devia estar bêbada. Achava graça de tudo. Meio doidinha, acho que não estava me dando mole, só tentando escapar de um cara lá que não parava de mexer com ela. Mas eu não vi o cara. Eu estava tranquilo também, cê sabe que eu gosto muito da Júlia. Mas então, cê lembra daquela menina que nadava comigo na equipe da escola? Você já deu carona pra ela. É a cara, tio. Eu pensei que fosse ela.” Tirei o celular do ouvido para ver o tempo da conversa no display. 52 minutos. E o menino não parava de falar. “Vai comprar o pão, ô sem vergonha.” E ele me obedeceu e desligou.
Olha, apesar dos quarenta e poucos, eu sou um homem bonito. Na verdade, eu sempre fui. E mesmo assim, uma morena dessas nunca me abordou em boteco copo sujo de praia. Só uns tios e uns hippies para me pedirem o isqueiro. E eu adoro morenas, Léo.
Léo.
O que aconteceu com você? O Raul me contou de uma briga com um rapazinho local — aliás, eu preciso achar o Raul — e agora as hipóteses florescem na minha imaginação, que não tem sono desde o contato da polícia.
Passaram os próximos dias longe da praia, fazendo trilhas e visitando os arraiais à procura de festa. Com Júlia sentada em seu colo (eu só via vocês nessa posição, encaixavam bem, até), estava em um boteco ao lado da praça da igreja de uma vila. Bebiam cerveja e viravam doses de cachaça da pior qualidade enquanto um forró soava indecifrável abafado pela voz de umas dezenas de pessoas que ocupavam as calçadas. Foi surpreendido por um grito de Raul que levantava a voz para um adolescente, prestes a agredi-lo. Pediu para Júlia levantar-se, a garota não atendeu imediatamente e quase foi derrubada no chão por um homem de sorriso estranho que até o minuto anterior era o namorado que com carinho passava as mãos quentes em suas pernas. A coragem imbecil que custou um carro e uma moto ao pai de Leonardo agarrava o adolescente pela nuca e bateu o rosto do rapaz com força em um banco de madeira e ferro da praça. Enquanto o sangue corria, alguém acertou uma cadeira nas costas de Léo, enquanto três ou quatro homens mais velhos corriam atrás dele, que escapava. Sumiu no mato, rasgou a perna esquerda nos galhos (uma das escoriações não era de coral, mas aparentemente de vegetação rasteira) e encontrou uma estrada de terra que seguiu por mais de uma hora caminhando devagar, sentindo seu corpo em chamas por conta do coração que parecia ter dobrado de tamanho.
Não sabia o motivo da briga de Raul e nem se importava. Também não se importava da grosseria com a namorada e nem com o fato de que provavelmente alguns homens o perseguiam em uma caminhonete, moto ou jipe com pedaços de pau ou uma pistola semi-automática embaixo do banco. Exausto, alcançou a praia. Sentou-se na areia e viu o sol nascer, vermelho como se estivesse se pondo. Realmente, o sol se punha para você, meu afilhado. Viu uma pessoa caminhar onde as ondas quebravam, chegou mais perto e reconheceu a mesma mulher de cabelos negros que viu no primeiro dia no litoral. A do bar (que… coisa é você, mulher? Shinigami?). Ela ignorou sua presença e mergulhou, nadando mais uma vez em ritmo forte e veloz, até desaparecer na espuma de uma grande onda que quebrou prematuramente. Mergulhou também. Seu corpo em chamas mal percebeu como a água estava gelada. Nadou em compasso olímpico esticando todos os seus músculos, estirando seus pulmões, sugando todo o ar salgado que havia em quilômetros cúbicos. Sem parar as braçadas, abriu os olhos e viu que a mulher nadava ao seu lado, fechou os olhos que ardiam com o sal e quando abriu de novo, ela já não estava mais lá. Quando finalmente parou, viu que ela voltava, derrotada e humilhada pelo novo recordista daquela praia.
Enquanto a água esfriava, olhou para o céu e ficou finalmente satisfeito de uma forma irracional, a única forma que sentia-se satisfeito na vida. Todo o seu corpo vibrava, o prazer era tão grande que balançava os pés sem cansar pra manter-se na superfície sem se cansar. Quando o corpo doeu pelo frio que fazia, decidiu voltar, mas quando olhou para a praia, ela estava distante e uma névoa baixa ia convertendo-a em um ponto invisível naquela imensa massa azul. O corpo esfriou, os pés pararam de se mover, os braços penderam-se ao lado do quadril. Quanto maior o músculo, mais forte a dor da cãibra, e as panturrilhas de Léo pareciam dois mamões. Afundou em silêncio, e sonhou de novo. Sonhou que nadava em um lago escuro e podia respirar embaixo d’água. Sonhou que estava na praia e nadava em direção ao horizonte. Quando quis voltar, a praia estava perdida.
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